Natural de Olinda (PE) e residente no Rio de Janeiro há mais de 20 anos, Fernando Ben é psicólogo, professor, pesquisador, perito judicial e fundador da Filosofia de Fátima, considerada a primeira filosofia inter-religiosa do Estado do Rio de Janeiro. Deficiente sensorial e diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA), iniciou sua trajetória religiosa aos 16 anos, influenciado pela convivência com diferentes tradições de fé presentes em sua família.
Em 2019, Fernando Ben foi alvo de uma matéria que teve repercussão em âmbito nacional. Acusaram-no de ganhar dinheiro com a fé. Segundo Fernando, não houve direito de resposta e começou um cancelamento público. Sobre essa questão, o blog conversou com ele. Segue a entrevista:
Em 2019, você foi alvo de uma reportagem que teve grande repercussão nacional. Como aquele episódio impactou sua vida pessoal e profissional?
Naquele período, eu cursava Psicologia como bolsista e trabalhava tosando cães. A repercussão foi devastadora. Tive dificuldades para concluir a graduação, perdi o emprego e não conseguia novas oportunidades profissionais. Tudo isso aconteceu justamente quando o caso João de Deus dominava o noticiário nacional, e muitas pessoas passaram a me associar, de forma completamente injusta, àquele episódio.
Os impactos foram financeiros, profissionais e emocionais. Como sou uma pessoa no espectro autista, vivi toda essa situação de maneira extremamente intensa. Minha família, minha filha, minha companheira da época e todos os envolvidos no trabalho da Casa de Fátima também sofreram com as consequências. Até hoje acredito que nenhuma descrição consegue dimensionar a dor que vivi.
Passados alguns anos, em que pé está a situação jurídica relacionada àquelas acusações?
As acusações surgiram após alguns voluntários da Casa de Fátima, influenciados por uma pessoa que se apresentava como pesquisador espírita e científico, registrarem um boletim de ocorrência. Eles alegavam que eu lucrava com a fé e tentaram dar à situação uma conotação de charlatanismo, usando as Cartas de Fátima como pano de fundo. Na verdade, havia uma disputa relacionada a interesses pessoais e até à expectativa de obter vantagens financeiras, e não propriamente ao trabalho espiritual desenvolvido na instituição.
Como ocorre normalmente, o delegado encaminhou o caso ao Ministério Público, que ofereceu denúncia. No entanto, a juíza rejeitou essa denúncia antes mesmo que ela se transformasse em um processo judicial. Na decisão, ela reconheceu que não havia estelionato e afirmou que eu apenas exercia a minha fé. Ou seja, juridicamente, nunca respondi a um processo criminal por essas acusações.
Na época da reportagem, essa decisão ainda não havia sido proferida. O editor do programa do Fantástico chegou a me prometer que, se o caso fosse esclarecido, produziria uma nova reportagem mostrando o desfecho. Isso nunca aconteceu.
Houve alguma decisão da Justiça que você considera importante para esclarecer o caso? Qual?
A principal decisão foi justamente a rejeição da denúncia pelo Judiciário. Não é comum que uma denúncia apresentada pelo Ministério Público seja rejeitada logo no início, sem sequer dar origem a um processo. Isso demonstra que a acusação não possuía elementos suficientes para caracterizar crime.
Hoje atuo como perito judicial, uma função que exige idoneidade e ausência de antecedentes criminais. Isso reforça que não existe qualquer decisão judicial que desabone minha conduta.
O problema é que a narrativa construída pela reportagem permaneceu. A entrevista durou mais de 30 minutos, contudo o espaço que foi dado na reportagem foi de segundos. Não houve equilíbrio na cobertura nem oportunidade para que o público conhecesse o outro lado da história.
Lembro muito do caso da Escola Base, em que anos depois houve reconhecimento dos erros cometidos pela imprensa. No meu caso, esse reconhecimento nunca aconteceu.
Você afirma que não teve direito de resposta na época. Como avalia a cobertura feita pela imprensa naquele momento?
Na minha avaliação, a cobertura foi tendenciosa. O editor afirmou que, após o encerramento do caso, me concederia direito de resposta, mas isso nunca ocorreu. Alguns meses depois, veículos menores chegaram a repercutir a decisão judicial, mas a mesma força utilizada para divulgar as acusações nunca foi empregada para informar que a denúncia havia sido rejeitada.
A imprensa tem o dever de informar tanto a acusação quanto o desfecho dos fatos. Hoje, você é a primeira jornalista que demonstra interesse em ouvir meu lado e compreender as consequências dessa repercussão.
Você acredita que foi vítima de preconceito religioso ou de capacitismo? Por quê?
Acredito que houve os dois. O capacitismo ocorreu de forma velada. Embora meu diagnóstico não tenha sido mencionado publicamente, muitas pessoas já percebiam que eu tinha uma forma diferente de pensar e agir, o que contribuiu para determinados julgamentos.
No entanto, considero que o preconceito religioso foi ainda mais evidente. A reportagem me apresentou como médium espírita, quando, na ocasião, eu não era mais. Desde 2018, eu já havia fundado a Filosofia de Fátima.
Mesmo assim, a reportagem ouviu representantes do movimento espírita para comentar um caso que não dizia respeito àquela religião. É como pedir ao Papa que opine sobre um conflito ocorrido em uma igreja evangélica ou em um terreiro de Umbanda. Na minha visão, isso demonstra um profundo desconhecimento e reforçou o preconceito religioso.
Quais foram as maiores consequências desse episódio para sua carreira e para sua vida pessoal?
Na vida pessoal, a maior consequência foi a humilhação. Muitas pessoas passaram a me comparar a João de Deus e se sentiram autorizadas a me ofender publicamente.
Profissionalmente, fiquei sem conseguir emprego. Amigos precisaram pagar minhas contas, comprar alimentos e me ajudar financeiramente para que eu conseguisse atravessar aquele período.
Mesmo diante de todas as dificuldades, continuei estudando, concluí minha formação em Psicologia e reconstruí minha trajetória profissional.
Apesar disso, os reflexos permanecem. Recentemente, perdi uma oportunidade para lecionar em uma faculdade particular porque alguém encaminhou a antiga reportagem para alunos da instituição.
Em algum momento você pensou em abandonar a Casa de Fátima ou interromper as Cartas de Fátima?
Nunca pensei em abandonar a Casa de Fátima. Quem mais sofreu com toda essa situação foram justamente as famílias atendidas pela instituição, cerca de 300 cadastradas. Antes da reportagem, distribuíamos mais de 100 cestas básicas por mês. Após a repercussão, as doações praticamente desapareceram. Hoje conseguimos entregar entre 25 e 30 cestas mensais, com muita dificuldade.
Passei um período afastado por causa da depressão e da sobrecarga emocional, mas meus amigos mantiveram o trabalho funcionando. Também mudei a forma de atuar. Antes viajava por praticamente todo o país levando o trabalho de fé. Hoje faço essas viagens apenas quando estou entre amigos ou em ambientes onde me sinto acolhido. O trabalho nunca foi interrompido, apenas ganhou um novo formato.
Como conseguiu enfrentar o período em que sofreu cancelamento, ofensas e dificuldades para conseguir trabalho?
Foram meus amigos que me ajudaram a sobreviver. Eles pagavam contas, compravam alimentos e me davam apoio financeiro. Eu tentava fazer pequenos trabalhos. Também tinha formação em massagem terapêutica e pensei em atuar nessa área. No entanto, uma amiga advogada me alertou que poderiam criar novas acusações contra mim. Cheguei a pedir emprego publicamente nas redes sociais, mas ninguém queria me contratar. Esse foi o nível do cancelamento que enfrentei.
Foi nesse contexto que você decidiu investir ainda mais na carreira acadêmica. Como essa escolha contribuiu para sua reconstrução?
Na verdade, eu não tinha outra opção. Continuar estudando era o único caminho possível. A carreira acadêmica fortaleceu minha autoestima, reafirmou minha identidade profissional e me permitiu reconstruir minha história a partir do conhecimento e do trabalho. Foi um processo de reconstrução pessoal e profissional.
Sua tese de doutorado trata da Esperança Social. Existe uma relação entre essa pesquisa e tudo o que você viveu?
Sim, existe uma relação direta. Durante o doutorado, comecei a estudar como a esperança é construída socialmente. Percebi que uma narrativa repetida continuamente pode moldar a percepção coletiva e influenciar profundamente a vida das pessoas. Foi dessa reflexão que nasceu o conceito de Esperança Social: uma esperança construída coletivamente, que pode ser fortalecida ou destruída pela maneira como as informações circulam na sociedade.
Hoje desenvolvo essa pesquisa com mulheres negras migrantes africanas no Rio de Janeiro, mas sua origem está profundamente ligada às experiências que vivi.
Hoje, olhando para trás, sente que sua imagem foi reconstruída? O que ainda precisa ser reparado?
Não acredito que minha imagem tenha sido reconstruída pela mídia. O que aconteceu foi uma reconstrução pessoal. Continuei estudando, trabalhando e conquistando novos espaços. As pessoas que hoje conhecem minha trajetória passam a enxergar alguém muito diferente da narrativa construída em 2019.
O que ainda considero importante seria um reconhecimento público do erro por parte dos veículos que participaram daquela cobertura. Não por vingança, mas porque a sociedade também tem o direito de conhecer o desfecho dos fatos.
Você pretende adotar alguma medida para responsabilizar quem considera ter contribuído para os danos à sua imagem?
Ao longo dos últimos anos reuni documentos e registros relacionados ao que considero uma perseguição motivada por preconceito religioso. Ainda avalio se tomarei medidas judiciais. Se isso acontecer, será não apenas por mim, mas também para evitar que outras pessoas passem pela mesma situação. Hoje, porém, minha maior resposta continua sendo seguir trabalhando e ajudando pessoas.
O que diria às pessoas que acreditaram nas acusações sem conhecer o outro lado da história?
Diria que isso pode acontecer com qualquer pessoa. Vivemos um tempo em que muitas pessoas acreditam na primeira narrativa que recebem, sem verificar os fatos ou ouvir todos os envolvidos. Mais importante do que tomar partido é defender a verdade, a racionalidade e o direito de cada pessoa ser ouvida antes de ser julgada.
Que mensagem você deixa para quem enfrenta julgamentos públicos, cancelamento ou perseguições por causa da fé, da profissão ou da condição pessoal?
Não permita que outras pessoas definam quem você é. Quem promove perseguições ou tenta destruir reputações deseja controlar a narrativa da vida do outro. Não entregue esse poder. Busque apoio nas pessoas que realmente o conhecem, preserve sua saúde emocional e continue fazendo o bem.
Eu sofri muito. Minha instituição também sofreu. Mas hoje me sinto vitorioso porque consegui me reconstruir sem abandonar meus princípios. Continuo ajudando pessoas na Casa de Fátima e em instituições parceiras.
Essa é a maior resposta que posso dar: seguir fazendo o bem, apesar de tudo.



