Dormir de boca aberta, roncar ou respirar pela boca pode parecer um hábito comum em crianças, mas são sintomas que merecem atenção dos pais. Quando a criança tem dificuldade para respirar pelo nariz e passa a puxar o ar pela boca, isso pode interferir no sono, na mastigação, no desenvolvimento da face e dos dentes, e até na concentração e no desempenho escolar. Por isso, é importante investigar a causa e tratar o problema de forma adequada, com uma equipe multidisciplinar.
“Quando uma criança respira pela boca de forma contínua, não estamos falando apenas de uma questão estética. A forma de respirar interfere na posição da língua, no funcionamento dos músculos da face, na mastigação e no desenvolvimento dos dentes”, explica o cirurgião-dentista Pedro Miranda, especialista em Ortodontia e Disfunção Temporomandibular (DTM). Segundo ele, essa condição também pode estar relacionada à baixa concentração, alterações de memória e de humor e baixo rendimento escolar. “Principalmente para crianças que, somado a isso, dormem menos que a média prevista para a idade escolar, entre 9 e 11 horas. Isso pode até ser diagnosticado como TDAH, mas ser consequência de um sono de má qualidade”, acrescenta.
Os pais de Julia Gabriela, 11 anos, por exemplo, procuraram um ortodontista por questões estéticas. No entanto, ela apresentava problemas respiratórios havia, pelo menos, cinco anos. “Ela fez uma cirurgia para retirar as amígdalas e as adenoides quando tinha 5 anos”, explicou Laisa Graziela, mãe de Júlia. Além de corrigir o espaço entre os dentes, que estavam desalinhados, o tratamento dela envolveu profissionais de diferentes áreas para melhorar a respiração e, ao mesmo tempo, trabalhar o desenvolvimento da boca, a mastigação e a deglutição.
“Júlia teve uma grande evolução em relação à respiração, que era só bucal, e ela conseguiu corrigir. O ronco não houve mais e melhorou o sono, proporcionando a ela um descanso com qualidade e, como resultado, mais disposição física e mental. E a correção dos dentes elevou sua autoestima, pois ela evitava até sorrir”, destaca a mãe de Júlia.
Um alerta para os pais
De acordo com Pedro Miranda, não é necessário esperar que apareça um problema nos dentes para procurar ajuda. Sinais do dia a dia podem indicar que a criança deve ser avaliada. “Os pais devem observar como a criança dorme e respira. Se ela dorme sempre de boca aberta, ronca, tem sono agitado, acorda cansada ou passa o dia respirando pela boca, vale procurar um profissional de saúde para investigar o que está acontecendo”, explica.
E a avaliação não precisa começar com um ortodontista. A depender dos sintomas, a criança pode ser examinada por um otorrinolaringologista, fonoaudiólogo ou cirurgião-dentista. O mais importante é identificar a causa do problema e definir o tratamento adequado para cada caso.
“Não existe um único profissional responsável por todos os casos. A respiração envolve diferentes funções e, muitas vezes, o melhor resultado vem justamente da atuação conjunta de profissionais de áreas diferentes”, reforça Miranda.



